Recuso-me a ler notícias sobre desgraças alheias

Avião sobre montanha

Não sei, não quero saber, nem tenho raiva de quem sabe. Não porque a dor dos familiares das vítimas me seja indiferente, muito pelo contrário, mas por respeito para com eles e para com o seu sofrimento.

Alegadamente, é típico do português meter o nariz onde não é chamado. E o pior é que normalmente o tuga não fica só por aí, mete também a cabeça, o tronco e não satisfeito entra a pés juntos.

Prova disso é que, habitualmente, num acidente rodoviário, a faixa de rodagem não afetada apresenta filas de trânsito maiores do que a faixa onde o mesmo ocorreu. Outro exemplo bem ilustrativo é quando nas urgências dos hospitais o tuga, embora doente, não resiste a levantar-se para ir à porta ver a chegada das ambulâncias, como se se tratasse de um desfile de vips na passadeira vermelha.

Os meios de comunicação sabem como ninguém “surfar” esta triste realidade sociológica e eticamente defendidos pela obrigação de informar, alimentam-se e alimentam-nos de tragédia alheia em doses tóxicas.

Para que não caia em tentação de assistir ao circo mediático montado pelos media em torno do acidente de aviação ontem ocorrido, relembro aqui o previsível e monótono desenrolar das etapas que este tipo de situações normalmente origina:

  • Tudo começa com o levantar de suspeitas sobre o desaparecimento de um avião, indiferentes à dor e ansiedade que vão causar às pessoas diretamente envolvidas. Quanto mais tempo durar esta fase melhor, para criar suspense e envolvimento com o espectador.
  • Confirmada a ocorrência do acidente, começam as estimativas quanto ao número de sobreviventes e a sua nacionalidade, com a mesma ligeireza que são feitos prognósticos sobre o resultado de um qualquer jogo de futebol.
  • Se o avião envolvido é de uma companhia aérea low-cost, tanto melhor. Imediatamente têm lugar acaloradas discussões quanto à segurança deste tipo de transportadoras. Lobbies são lobbies, e as oportunidades para denegrir os concorrentes são para aproveitar. 
  • Segue-se a saga para encontrar os destroços do avião, como se de um episódio da série “Lost” se tratasse. Como na série de ficção, o ideal é que esta fase seja bem prolongada, dando azo a todos os tipos de teses e especulações (uma que por acaso não tem sido explorada é a dos extraterrestres, portanto aqui fica a dica). 
  • Em paralelo arrancam os episódios do reality show, onde nenhuma estória da vida real fica por contar: a das pessoas que eram para embarcar e não chegaram a embarcar; a das pessoas que não eram para embarcar e acabaram por embarcar, etc etc. 
  • A novidade dos últimos anos tem sido a imediata suspeita de ataques terroristas, o que normalmente permite aos grandes líderes nacionais e mundiais juntarem-se ao circo e fazerem, também eles, declarações inflamadas e patrióticas em defesa da paz mundial. 
  • Encontrados os destroços do avião, há que recolher os corpos dos passageiros. A conta-gotas ligam-se os holofotes sobre a dor dos familiares e amigos das vítimas, indiferentes ao seu sofrimento, mas sempre em defesa dos mais altos interesses das pessoas envolvidas (leia-se os jornalistas). 
  • De imediato dá-se também início à "caça ao tesouro", em busca das caixas negras do avião. Nessa altura começam já a desmontar o circo e quando as caixas negras são encontradas, a caravana já está de partida para outras paragens. 
  • Quando os resultados da caixa negra são finalmente revelados, pouca ou nenhuma importância é dada ao assunto, pois a final de contas foi apenas mais um acidente de aviação, que teve a sua origem em problemas técnicos. 
Em Portugal, pior mesmo só a cobertura mediática que é feita durante a famigerada “época de incêndios”

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